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terça-feira, 28 de maio de 2019
Receitas para Fazer Doentes?!
Receitas para fazer doentes?🤔 Assista a entrevista e saiba tudo sobre a nova obra em formato digital do Dr. Marcio Bontempo.
Esculápio e a Saúde Pública no Brasil - Marcio Bontempo
ESCULÁPIO E A SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL – MÁRCIO BONTEMPO

Deus da medicina e da saúde para os gregos antigos, Esculápio teve duas filhas: Panacéia e Higéia, geradas com a função de cuidar da saúde dos mortais e a quem ensinou a nobre arte. A primeira tinha como princípio desenvolver e difundir recursos para tratar as doenças e a segunda, Higéia, ensinar os humanos a evitar as enfermidades, mas por meio da adoção de hábitos de vida naturais. Diz-se que elas viviam constantemente em conflito, para martírio do pai, que tentava a todo custo estabelecer a harmonia entre elas. De Higéia surgiu a palavra higiene e de Panacéia, a própria palavra panacéia, que tem o significado de remédio para todos os males. Curiosamente, é dos nomes e das características individuais das filhas de Esculápio, a origem das duas grandes correntes da medicina, uma voltada exclusivamente para a terapêutica (tratamento medicamentoso) e outra, para a prevenção, educação de hábitos, recuperação, manutenção e cuidados com a saúde (higiene).
Parece então que as medicina tradicionais antigas, até a época de Hipócrates, seguiram mais a escola de Higéia e menos a de Panacéia (restrita apenas a emergências e casos de acidentes, agravos, etc.), mas Galeno, médico grego do imperador romano Marco Aurélio, nítido devoto de Panacéia, divergindo do mestre Hipócrates, desenvolveu uma profusa farmacopéia sintomática, visando atender a nobreza romana nos seus males agudos derivados dos excessos e libações, ou seja, o sistema de Galeno não visava a recuperação integral da saúde e prevenção das moléstias, senão apenas tratar os sintomas. Nascia então uma prática que culminou no atual conceito-base da medicalização, cujo fundamento criou a indústria farmacêutica, dentro de um modelo de atenção à saúde centrado no médico (iatrocêntrico) e “hospitalocêntrico”, como expressão de uma visão biomédica cartesiana.
O ideal de Esculápio, até hoje, é estabelecer uma integração harmônica entre as filhas, o que significa inferir que a Medicina pode ser completa se unir as duas correntes, a terapêutica adequada e a prevenção. Diz-se que nos momentos em que Esculápio conseguiu um pouco de paz entre suas filhas, nasceram as grandes doutrinas médicas do passado, como o Aiurveda na Índia, a Medicina Chinesa, a Medicina árabe, egípcia, etc.
Quando foi criada a A Organização Mundial de Saúde, a princípio, Panacéia foi certamente a madrinha da instituição. Inicialmente, a visão do órgão internacional era fortemente centrada no medicamento como solução para todos os males da humanidade. Parecia que, com remédios, todos os problemas estariam solucionados. Ledo engano. Não resolveram. Foram exatamente as melhorias sanitárias e as ações fundamentadas em práticas de saúde culturalmente enraizadas que diminuíram a incidência e a prevalência das doenças infeciosas e não apenas o antibiótico, ou seja, resultado da ação de Higéia, certamente com uma pequena relativa ajuda da irmã.
Então a Organização Mundial de Saúde, desde Alma-Ata em 1978 (quando se definiu o fundamento da Atenção Primária à Saúde e a importância das medicinas tradicionais), colocou Higéia no pedestal das políticas internacionais de saúde, para desgosto da Indústria Farmacêutica amadrinhada por Panacéia.
Porém, tanto as ações de saúde quando a prática médica, sejam públicas ou privadas, seguiram obedecendo em grande parte à irmã ambiciosa de Higéia. E a briga continuou. Higéia, sempre amorosa e atenta, tendo inspirado já o Dr. Dawnson em 1920 (ver Relatório Dawnson, que estabelece as bases de uma visão social e da formação de redes de atendimento domiciliar ou descentralizado, realizado por equipes), prosseguiu na sua saga de produzir mudanças conceituais em termos de saúde pública para os governos. Mas sua irmã também não descansou. A indústria farmacêutica cresceu e, além da sua utilidade em descobrir novas drogas para salvar vidas, desenvolveu um forte sistema de lobbies nos governos, em sua ânsia de gerar imensos lucros com a exploração das moléstias. Panacéia ajudou. E fez isso principalmente através do ensino médico, trabalhando para manter sua característica cartesiana (ou flexneriana, como dizemos no jargão “sanitarês”), com forte foco na terapêutica medicamentosa. No Brasil, onde Panacéia tradicionalmente reinou absoluta, a força de Higéia começou a se tornar patente com os progressivos movimentos que desenvolveram o fundamento da Atenção Primária e o nascimento do Sistema Único de Saúde. Certamente era Higéia quem vibrava sobre as Conferências Nacionais de Saúde, ganhando tentos sobre sua irritadiça irmã, principalmente com a inclusão das Práticas Integrativas de Saúde na rede de atendimento. Paralelamente, Panacéia continuava a crescer com o avanço da tecnologia médica, tanto terapêutica quanto diagnóstica, dentro de uma visão reducionista do binômio saúde/doença.
Higéia insuflava na mente dos pensadores sanitaristas, principalmente no Brasil, o ideal da Reforma Sanitária e a postura corporativa e isolacionista de cada política pública como nociva do ponto de vista orçamentário e funcional. Mas Panacéia gosta de hospitais, de alta complexidade, de UTIs, de super especialistas, de médicos, de tomógrafos, sem conseguir entender que o processo de ultra-especialização do exercício médico gera uma tendência para a despersonalização da relação médico-paciente, favorecendo a perda da percepção integral da pessoa, relegando para segundo plano a dimensão social e psicológica do indivíduo, agora dividido em tecidos, órgãos, aparelhos e sistemas. Já Higéia ama agentes comunitários de saúde, equipes multidisciplinares, medicina natural, Terapia Comunitária Integrativa e médicos de família. Mas problemas e desafios persistem impedindo os avanços de Higéia, Por exemplo, a Equipe de Saúde da Família – cerne da Atenção Básica-, apesar das conquistas nos últimos anos, ainda enfrenta muitos entraves. Se Panacéia pudesse cuidar mais das emergências, da medicina tecnológica, da média e alta complexidade, etc. e Higéia da promoção e da educação em saúde, teríamos uma situação melhor, com o fomento do bem-estar e da qualidade de vida na base da sociedade, com isso a diminuição da procura dos serviços e a consequente redução dos enormes gastos públicos com a doença. Precisamos de medicamentos, mas o que certamente não precisamos é de um oneroso modelo de assistência demasiadamente centrado neles.
Claro que um modelo ideal de assistência à saúde depende de uma oferta de serviços que agrade ambas as deusas que, talvez não saibam, mas o pai certamente sim, que elas são os pratos de uma mesma balança.
Afora qualquer conotação maniqueísta ou polarizada quanto às características das deusas, percebemos que Panacéia continua muito forte na saúde pública brasileira, enquanto Higéia, depois de um bom avanço, parece ter agora empacado, uma vez que a Atenção Básica, com muitos problemas estruturais e funcionais, tem mostrado ares de estagnação. Higéia, contudo, ganha forças na maioria dos demais países. Então parece estar na hora de Esculápio olhar outra vez para o Brasil. Entonemos, pois, preces, odes e súplicas a Esculápio, na esperança que o deus nos acuda. Esculápio! Como um humilde servo mortal, por favor, ordene que Panacéia permita mais de espaço para Higéia neste sofrido país! Esculápio olhe essas filas nos hospitais! Olhe a falta de insumos! Olhe essa gente desassistida que espera meses por exames e cirurgias! Olhe a falta de uma gestão inteligente e de capacitação adequada para gestores em saúde, Esculápio! Olhe os lobbies de Panacéia no Congresso, Esculápio! Olhe os desvios de recursos do SUS, Esculápio! Olhe o descumprimento da Emenda 29! Protege a Portaria 971! Incute compromisso social e consciência cívica nas almas dos servidores, Esculápio! Olhe o sucateamento das unidades de saúde! Com todo o respeito, lance seus sagrados eflúvios sobre a saúde pública no Brasil, Esculápio! Esculápio, já que você nos inspirou na criação do nosso sistema de saúde, ó divino senhor, salve então o SUS!
Assina: Marcio Bontempo, seu humilde devoto e servo, discípulo de Hipócrates.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
O Fantástico, Drauzio Varella, as plantas medicinais e o lobby da indústria farmacêutica
Esse programa do Fantástico com Drauzio Varella e as plantas medicinais, é apenas uma reação da indústria farmacêutica preocupada com a PNPMF - Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterapia, do Ministério da Saúde (que foi lançado em 2006 por Lula e autoridades) e assim eles mobilizam a mídia. O Drauzio talvez nem saiba que está sendo usado, porque ele faz pesquisas sérias sobre os efeitos anticancerígenos de muitas plantas. A preocupação dele é basicamente o uso irresponsável de plantas e fitoterápicos. Claro que dói ver na matéria o excesso de pressão sobre os "perigos" das plantas, inclusive a babosa...Certamente que cuidados são necessários com as plantas, mas muito, muito, muito mais cuidados precisamos ter com os medicamentos...e isso não aparece nessas matérias tendenciosas. As autoridades sanitárias são permissivas, em sua subserviência aos interesses da indústria lobista dos remédios (que fatura 600 bilhões de dólares anualmente no mundo), pois permitem propaganda de remédios na TV, etc. Isso é ridículo, pois, até onde se sabe, propaganda é para incentivar o consumo. E depois a propaganda termina com a frase infame: "Ao persistirem os sintomas, um médico deve ser consultado", como se um leigo soubesse quando deve exatamente procurar um médico numa situação, por excemplo, de uma dor de cabeça antiga, que pode ser um tumor em crescimento. Isso é nitidamente para proteger a IF e incentivar a produção e o lucro. Esses mesmos interesses que alimentam os cartéis no Congresso Nacional, vacinando parlamentares e financiando tanto campanhas como muitos mandatos, são aqueles que permitem aberrações, como o caso do Viagra (agora mais barato)...um medicamento que pode matar, causar danos terríveis ao coração e ao cérebro (é só ler a bula), que deveria ser tarja preta, receitado apenas por médico, mas que QUALQUER UM, INCLUSIVE JOVENS PARA AUMENTAR A PERFORMANCE SEXUAL - OS MAIORES FREGUESES DA DROGA - PODEM ADQUIRIR SEM RECEITA ALGUMA. Por que essa situação? A resposta está na mesma esfera dos motivos que criam programas tendenciosos assim. Quero ver o Fantástico fazer uma matéria contra isso, o caso do Viagra. Não fazem!
O recente escândalo do Viox, um antiinflamatório (que diga-se de passagem, intoxicava e pouco funcionava), foi lançado pela IF com grande alarde, com bilhões em investimento...para depois de alguns meses sair do mercado porque estava matando gente do coração! E todos os anos a IF e a Anvisa retiram dezenas de medicamentos do mercado. Então estamos sob risco, porque a pergunta que não quer calar é: quantos dos remédios que nós médicos estamos receitando e as pessoas comprando livremente nos balcões de farmácia, ou mesmo recebendo do SUS, não serão, um dia, retirados por ter se descoberto que produzem danos. O irônico é que muitos remédios saem de circulação e são proibidos, muitas vezes, não porque produzem danos, MAS PORQUE NÃO FUNCIONAM!!! Hilário...se não fosse triste. E depois o programa aponta que plantas não funcionam.... apesar de pesquisas científicas sérias mostrarem o contrário..E por falar em pesquisas, esses medicamentos que são retirados das prateleiras todos os anos, não passaram por pesquisas? Passaram. E são por essas pesquisas e experiências que o programete global diz que as plantas deveriam passar. Então como fica a situação?
Sabemos que, a contar com a metodologia aplicada nas pesquisas científicas, os resultados podem ser usados para afirmar o que se queira, como o faz a IF mundial.
Uma coisa o Fantástico não mostra: os dados da Americam Medical Association apontando que morrem cerca de 170 mil pessoas nos EUA por causa da interação medicamentosa- um fenômeno produzido pelo consumo de vários remédios juntos pelo mesmo paciente - , erro de tratamento e escolha errada do remédio..e por médico!. No Brasil acontece o mesmo, mas não temos estatísticas. Mesmo porque não interessa divulgar, pois somos o segundo maior consumidor de medicamentos do mundo! Também não se aponta que raras pessoas morrem devido ao uso de plantas medicinais. Não há estatística porque o número é irrisório.
O paradoxo desse programa do Fantástico - é bom que a população saiba - é que a matéria reduz a importância das plantas (sob o pretexto de que podem fazer mal se mal utlizadas), quando o Brasil é a maior biodiversidade de plantas do mundo! E daqui saem, clandestinamente, milhões de toneladas de plantas e remédios da Amazônia....
E é bom que a população saiba também, que cerca de 40% de todos os remédios de farmácia tem como base plantas medicinais ou derivados das mesmas. Então como "não funcionam"?
Essa matéria, embora seja até útil para apontar alguns abusos e charlatanismos, da forma como aterroriza o telespectador em relação às plantas, vai na contramão das novas políticas públicas de saúde, que estão utilizando a fitoterapia na rede pública, com plantas estudadas profundamente pelo Ministério da Saúde e publicadas em manual científico. Também está na contramão, porque existe a Portaria 971 do MS que contempla a fitoterapia e, mais do que isso, a própria Organização Mundial de Saúde (órgão máximo de saúde no mundo, muito maior do que qualquer emissora de TV), em sua nova política, recomenda aos países membros o uso de recursos mais simples, menos danosos á saúde, mais baratos, inofensivos, cientificamente comprovados e estudados, eficazes e mais identificados com a cultura milenar da humanidade, as plantas medicinais, tudo sintetizado no conceito da Medicina Tradicional.
Bem, certamente Drauzio sabe disso e o que irrita, certamente, é ver um profissional do gabarito dele, um estudioso, estar sendo envolvido por essa situação. O magnífico trabalho dele na TV com o caso das grávidas contrasta com o atual, embora o clima do programa pareça de preocupação e de cuidado com a saúde pública.
Mas estamos diante de uma revolução nos conceitos de saúde e esse programeteprogramete acabou com o confrei (lembram? e tenho pesquisas que provam o efeito dele), mas não tem poder para acabar com uma revolução na Saúde, que é planetária. Afinal, assim como a saúde é maior do que a medicina, a Consciência é maior do que a mídia.
E para aqueles que chamaram o Dr. Drauzio Varella de "Mr. Magoo" da medicina, peço mais respeito, porque ele é meu colega na alopatia (também prescrevo remédios quando realmente necessários e sigo a propedêutica médica). Todos têm o direito de ter conceitos divergentes e de cometer erros, mas ele, Drauzio, tem um lado fortemente bem intencionado, assim penso e rezo.
Marcio Bontempo
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Tradicional
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Como melhorar de fato a Saúde Pública no Brasil

O modelo atual de prestação de serviços de saúde, apesar de toda a evolução do Sistema Único de Saúde - o SUS, ainda é ineficiente e não cumpre o desiderato apontado na Constituição, de que é dever do Estado oferecer ao cidadão todos os meios para que ele goze de boa saúde. Ao contrário, o modêlo continua sendo alvo de críticas e, historicamente, se mostra como um sistema que oferece serviços de baixa qualidade à população e remunera mal os profissionais da rede pública de atendimento. As verbas federais repassadas aos estados e municípios, continua insuficiente para bem atender a todos os programas do MS e as necessidades da população.
Enquanto não são de fato ventiladas as causas desse caos, continuarão a perdurar as filas nos hospitais e clínicas; continuarão exames, consultas e cirurgias a serem marcados com datas ridiculamente distantes (muitas vezes quando o paciente melhorou por conta própria ou morreu); continuará a persistir a insatisfação do usuário; continuarão a morrer cidadãos que necessitam de, por exemplo, hemodiálise, que não conseguem agendar seu procedimento por falta de equipamento e espaço; continuará o sucateamento e todos demais itens da enorme lista de problemas da asistência à saúde pública no Brasil.
E quais as causas reais dessa situação?
Apesar de muitas propostas de solução para a questão da assistência à saúde pública, nenhuma delas tem se mostrado eficaz, pois elas carecem do elemento essencial, que não é comumente verificado nas discussões:
Temos um sistema de assistência e uma política de saúde inadequados à realidade social, cultural e econômica brasileira.
No Brasil o Governo investe muito no setor terciário (tecnologia de ponta, equipamentos caros, hospitais, etc.) e pouquíssimo, quase nada, no setor primário de saúde.
O setor primário em saúde é aquele em que se valoriza o aspecto cultural da população, identificada com seus princípios, valores, recursos naturais e humanos, além de outros elementos, utilizando-se pessoas e profissionais como agentes de saúde para atuar dentro das comunidades, capacitados, assistidos por profissionais de maior formação técnica, dentro de um modêlo multiprofissional e multidisciplinar de atenção à saúde. Foi o foco e o investimento no setor primário de saúde que produziu uma verdadeira revolução na situação de saúde da China, Índia, Cuba e diversos outros países, incluindo a re-incorporação da medicina tradicional.
O sistema e a política de saúde no Brasil é por demais centralizado no médico (dito “iatrocêntrico”) e, portanto, fundamentado no princípio de combate às doenças (que é aquilo para o qual o médico é treinado). O resultado é que a terapêutica centrada na medicação, na cirurgia ou ambos.
As verbas repassadas pelo Governo Federal aos estados e municípios para a saúde, não são suficientes para atender a todas os programas e as necessidades da população, resultando numa situação caótica, onde a chamada “municipalização da saúde”, como reza a política de saúde atual do SUS, torna-se impossível.
Numa linguagem simples, fugindo do “sanitarês”, para todos entenderem:
No atual modelo cidadão procura o serviço de saúde quando tem algum problema. Geralmente quando chega a um serviço, a sua doença já está adiantada ou é irrecuperável, o que, certamente, onerará os cofres públicos. O caso do diabetes é típico, pois quando se procura o médico, a doença já está em estágios ulteriores. Por isso o modelo atual é caro, oneroso e voraz, pois quanto mais cresce a população, avolumam-se os problemas, devido ao crescimento da demanda.
Na atenção primária na saúde - a exemplo do que aconteceu em diversos países, como a China, a Índia, e Cuba – não é o cidadão quem procura o serviço, mas o inverso: o serviço procura o cidadão, através da visitação domiciliar, seja do agente comunitário de saúde (elemento chave no processo), do médico, da equipe multiprofissional, etc., que atuam em postos avançados de saúde, preferencialmente dentro da comunidade. Desse modo, muitas doenças que estão em desenvolvimento, sem apresentar ainda sinais e sintomas, podem ser detectadas e tratadas, as mesmas que, mais tarde, estariam exigindo internação, tratamentos caros, etc., consubstanciando as diretrizes da melhor das medicinas, que é a verdadeira medicina preventiva. Além disso, cada cidadão ou família recebe orientação preventiva, remédios, vacinas, orientação de higiene e alimentação, etc. de modo a evitar as doenças, melhorando a qualidade de vida. Com isso, têm-se condição de conhecer a situação de saúde da população de modo quase personalizado (como o que ocorreu na China), onde relatórios rotineiros apresentam a real condição da população.
Com isto diminui-se drasticamente a procura às clínicas e hospitais, o que repercute na economia com as ações de saúde. Desde que esta inversão de modelo e política se faça com a atuação conjunta de uma equipe multiprofissional, consegue-se realizar aquilo que representa a chave que abre a porta para a revolução no sistema de saúde no Brasil - compreendido por poucos - que é a “desmedicalização” das ações de saúde, ou seja, reduzir a carga sobre os médicos dessas ações e distribuir essa carga e a responsabilidade para outros profissionais da área da saúde ou correlatos.
Esta é a recomendação da Organização Mundial de Saúde que, desde 1984, vem divulgando as diretrizes da Medicina Tradicional e estimulando os países membros a aplicar em seus sistema s de saúde a ideia de valorizar e utilizar os recursos humanos e naturais. Com base nessa filosofia, o nosso Ministério da Saúde lançou em 2006 a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares de Saúde, com a publicação posterior das Portarias 971 e 853, que instituem recursos como a Fitoterapia, a Acupuntura, a Homeopatia e vários elementos da Medicina Tradicional na rede pública de saúde, o SUS, em todo o território nacional. Isso representou um grande passo em direção a uma mudança ou evolução na oferta dos serviços, mas essas portarias não estão regulamentadas e não estão sendo postas em prática, a não ser em alguns municípios, porém de modo insipiente. É necessário capacitar profissionais de saúde – preferencialmente agentes comunitários de saúde e terapeutas naturistas - para assumirem o desiderato apontado nessas portarias.
O Ministério da Saúde criou o PSF - Programa de Saúde da Família, que está sendo aplicado em muitos estados e municípios, porém ele carece de estrutura e de base, estando ainda centrado demais no médico. Esse programa é importante e pode representar o ponto de partida para as mudanças necessárias na política de saúde aqui apontadas, desde que apropriadamente utilizado e adaptado.
Realidade:
O Brasil é o país de maior biodiversidade do mundo e o mais rico em plantas medicinais e recursos terapêuticos naturais, além dos recursos humanos culturais tradicionais como raizeiros, parteiras, curandeiros, pajés, na mais exuberante etnomedicina conhecida. No entanto, é o terceiro maior consumidor mundial de medicamentos e o país que paga pior os profissionais da área.
Precisamos de recursos mais baratos, mais simples e eficazes, com as plantas medicinais e outros recursos naturais, que não onerem a economia familiar, do cidadão ou do próprio governo. Os fármacos - apesar de necessários em muitos casos, principalmente agudos – são extremamente caros e não curam as doenças de fato. Há recursos integrativos e complementares mais simples como as ervas medicinais (muitas já catalogadas e aprovadas pelo Ministério da Saúde) a terapia pelos alimentos e recursos naturais, aos quais o povo brasileiro está culturalmente identificado e adaptado.
[Dr. Marcio Bontempo - Médico Sanitarista]
[Dr. Marcio Bontempo - Médico Sanitarista]
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